O avanço do etanol de milho no Brasil entrou definitivamente em uma nova fase. Com produção projetada para alcançar 10 bilhões de litros até o fim de 2025, segundo dados da União Nacional do Etanol de Milho (Unem), o setor vive um ciclo acelerado de expansão que vem redesenhando o mapa industrial do país e mobilizando investimentos bilionários. Mas, junto com o crescimento, ganha centralidade uma variável que começa a preocupar investidores e operadores: a segurança energética das usinas.
Esse foi o foco da apresentação de Ricardo Blandy, diretor comercial da ComBio, durante a BioMilho, realizada na última quarta-feira (26/02), em Ribeirão Preto (SP). Diante de um público formado por executivos de usinas, investidores e fornecedores do setor, Blandy apresentou um panorama estratégico da cadeia bioenergética do milho e alertou para um risco estrutural que pode afetar diretamente a competitividade dos novos projetos.
Dos mais de 35 empreendimentos anunciados no país, cerca de 20 devem avançar nos próximos anos, somando aproximadamente R$ 21,6 bilhões em investimentos e gerando uma demanda adicional estimada em 6,8 milhões de toneladas de biomassa por ano. A expansão, concentrada sobretudo no Centro-Oeste, pressiona um mercado que já apresenta sinais de desequilíbrio entre oferta e consumo de biomassa, especialmente em polos onde etanol de milho, fertilizantes, processamento de grãos e indústrias madeireiras disputam o mesmo insumo.
Nesse contexto, a discussão sobre vapor ganha outra dimensão. Dentro da estrutura de custos da produção de etanol de milho, o vapor representa o segundo maior item, atrás apenas do próprio milho. Ou seja, além de ser elemento essencial para sustentar as etapas críticas do processo industrial, trata-se também de um dos principais vetores de pressão financeira sobre as usinas.
Na prática, o desafio passa pela geração eficiente e previsível desse insumo térmico. Segundo Blandy, a gestão da biomassa deixou de ser uma variável operacional e passou a ser componente estratégico da viabilidade econômica dos projetos. Modelos especializados de operação térmica podem gerar ganhos de eficiência capazes de reduzir em cerca de 10% o custo do vapor, o que representa incremento de 1% a 2% na margem final da operação de etanol de milho.
“Quando falamos em margens cada vez mais pressionadas, 1% ou 2% fazem diferença real na competitividade do projeto. O vapor é o segundo maior custo da operação. Portanto, qualquer ganho de eficiência térmica tem impacto direto no resultado”, afirma Blandy. “A gestão da biomassa precisa ser pensada desde o início, com previsibilidade de suprimento e estrutura dedicada, porque a usina simplesmente não opera sem vapor. Sem planejamento de longo prazo, o risco deixa de ser apenas de custo e passa a ser de continuidade operacional”, complementa o diretor.
Outro ponto destacado na BioMilho foi o risco reputacional associado à origem da biomassa. Embora a supressão legal de vegetação nativa seja permitida dentro do Código Florestal, a prática é cada vez mais sensível do ponto de vista ambiental e enfrenta crescente escrutínio público e internacional. Para projetos estruturantes, que demandam previsibilidade de décadas, rastreabilidade e formação de cadeias sustentáveis tornam-se requisitos estratégicos, especialmente diante de investidores atentos a critérios ESG.
Ao participar como palestrante na BioMilho, evento que reforça o protagonismo do interior paulista como polo de debate e articulação do agronegócio e da bioenergia, a ComBio se posiciona no centro das discussões sobre segurança térmica, estrutura de custos e gestão de risco no etanol de milho. Em um momento em que novos projetos saem do papel e a competição por biomassa se intensifica, a forma como as usinas estruturarão sua matriz energética pode definir não apenas o ritmo de expansão do setor, mas quais operações conseguirão preservar margem e competitividade em um mercado cada vez mais exigente.
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