O cenário geopolítico voltou a colocar o petróleo no centro das atenções após a escalada do conflito envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã. A tensão elevou os prêmios de risco nos mercados de energia, impulsionou os contratos futuros da commodity e ampliou a volatilidade internacional. Para Cristian Bazaga, CEO da Excel, empresa especializada em gerenciamento de combustível e gestão de frotas, o mercado já precifica não apenas o conflito em si, mas também a possibilidade de uma escalada militar que comprometa o abastecimento global. “Mesmo sem uma interrupção imediata da produção, o aumento da incerteza adiciona um prêmio de risco ao barril. O mercado reage rapidamente a qualquer sinal de ameaça às rotas estratégicas de exportação”, afirma.
A principal preocupação concentra-se no Estreito de Ormuz, rota por onde transita entre um quinto e um terço de todo o petróleo transportado por via marítima no mundo. Segundo Bazaga, eventuais restrições no tráfego e a suspensão preventiva de operações por grandes empresas de transporte marítimo já produzem efeitos concretos. “Companhias do setor estão redirecionando rotas para o sul da África, o que encarece o frete e aumenta o tempo de trânsito. Qualquer bloqueio ou ataque a navios provoca atrasos, redução momentânea da oferta disponível e corrida por estoques estratégicos, gerando picos abruptos de preço”, explica.
Em cenários de agravamento, analistas projetam que o Brent possa se aproximar ou até ultrapassar a marca de 100 dólares por barril caso a tensão persista. No curto prazo, a tendência é de alta acompanhada de forte volatilidade, impulsionada tanto por riscos reais de interrupção quanto por movimentos especulativos e ajustes preventivos de estoques.
Para o Brasil, o cenário é ambivalente. De um lado, preços mais elevados fortalecem a balança comercial, ampliam receitas de exportação e aumentam a arrecadação de royalties do setor produtor. “Sob a ótica macroeconômica, há benefício para um país exportador relevante de petróleo como o Brasil”, avalia. Por outro lado, o país permanece inserido na dinâmica internacional de preços e ainda depende parcialmente da importação de derivados. “Quando o petróleo sobe de forma consistente, cresce a pressão sobre refinarias e distribuidoras. Isso pode gerar necessidade de reajustes e reabrir o debate sobre política de preços e mecanismos de amortecimento ao consumidor”, afirma.
Segundo o especialista, os efeitos tendem a chegar rapidamente ao consumidor final. “Os impactos costumam aparecer ainda no primeiro mês, dependendo da intensidade da alta e das estratégias comerciais das distribuidoras. O diesel normalmente sente primeiro, porque está diretamente ligado ao transporte e possui menor margem de absorção de custos ao longo da cadeia”, destaca.
Setores intensivos em combustível estão entre os mais expostos. Transporte rodoviário e agronegócio tendem a sentir rapidamente o aumento do diesel, enquanto a aviação sofre pressão direta por meio do querosene, que acompanha o movimento internacional do petróleo. O repasse ao frete é um dos principais canais de transmissão para a economia real. “Quando o diesel sobe, o custo logístico aumenta e esse movimento é gradualmente incorporado aos preços de alimentos, bens industriais e serviços. Esse encadeamento amplia o risco de pressão inflacionária em um ambiente de maior volatilidade global, reforçando a importância de monitoramento estratégico por empresas que dependem de combustível em sua operação e na gestão de frotas”, conclui.
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