FUP participa de audiência sobre alta de preços pós-privatização

A Federação Única dos Petroleiros (FUP) participou da audiência pública realizada nesta quarta-feira (15), em Brasília, que reuniu especialistas e representantes do setor para discutir os impactos da privatização da distribuição de combustíveis no Brasil. Dados apresentados pelo Instituto de Estudos Estratégicos de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (Ineep) e pelo Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese/subseção FUP) apontam aumento de preços, maior volatilidade e efeitos diretos sobre o custo de vida, especialmente após a venda das refinarias, BR Distribuidora e Liquigás.

Durante o debate, a diretora da FUP e do Sindicato dos Petroleiros do Norte Fluminense (Sindipetro-NF), Bárbara Bezerra, fez duras críticas ao modelo adotado após a privatização, destacando distorções que afetam diretamente a percepção da população. “Na privatização da BR Distribuidora, a gente tem um verdadeiro crime quando se aceita que os postos continuem usando a marca Petrobrás. Isso confunde a população e faz parecer que a Petrobrás é responsável pelo aumento dos preços”, afirmou. Ela também chamou atenção para a falta de controle na ponta final da cadeia. “A Petrobrás segura o preço nas refinarias, os postos aumentam. A população não consegue entender. Tem algo aí que a gente ainda precisa corrigir.”

Bezerra ainda destacou que o debate sobre preços precisa considerar toda a cadeia produtiva do petróleo, desde a extração. “O ciclo não começa na refinaria, começa no poço. No pré-sal, o custo do barril é de cerca de 8 dólares. Quando se vende a 120 dólares, é preciso discutir como essa riqueza está sendo utilizada e por que não está sendo revertida para garantir autossuficiência em derivados.”

Já a diretora técnica do Ineep, Ticiana Alvares, destacou o papel estratégico que a BR Distribuidora exercia antes da privatização, atuando como referência para o mercado e protegendo o consumidor contra abusos. “Com essa fatia de mercado, a BR Distribuidora tinha um papel na formação de preços. Se o consumidor via o preço num posto BR a R$ 5, e no outro posto a R$ 7, ficava claro que o que cobrava R$ 7 estava com um preço abusivo”, afirmou. Segundo ela, essa capacidade estava diretamente ligada à integração com a Petrobrás, que permitia equilibrar ganhos ao longo da cadeia e amortecer os impactos das variações internacionais do petróleo.

Dados apresentados pelo economista do Dieese/FUP Cloviomar Cararine reforçam esse cenário, mostrando aumento e maior volatilidade nos preços praticados pela Acelen, refinaria baiana privatizada em 2021, além de evidenciar que cidades como Salvador e Manaus registraram alta no diesel e na cesta básica, com impactos sobre o custo de vida. Salvador é a capital brasileira que registra os maiores preços do diesel S10 ao consumidor final, atingindo em média R$ 8,20 por litro, na semana de 5 a 11 de abril. Em doze meses, a variação de preço foi de 27,33%. O mesmo comportamento é observado em Manaus, onde a refinaria foi privatizada em 2022. Com isso, a cesta básica na capital amazonense teve alta de 7,42% em março, e de 7,15% em Salvador, no mesmo mês – percentuais muito acima da inflação.

 

Paulo Neves, diretor da FUP e do Sindicato dos Petroleiros do Amazonas (Sindipetro-AM), destacou que, em regiões como o Norte do país, a privatização criou situações ainda mais críticas, com concentração de mercado e risco de desabastecimento. “Quando a gente olha para a região do Amazonas, onde há apenas uma refinaria, isso configura um monopólio privado regional fortíssimo”, afirmou.

Neves também alertou para os efeitos concretos sobre a população. “Nos rincões do Amazonas, o combustível é vendido a preços absurdos. Já temos desabastecimento acontecendo.” O dirigente defendeu a retomada do papel da Petrobrás também como garantia de acesso universal ao combustível. “A gente precisa garantir que o abastecimento chegue não só às grandes capitais, mas também aos lugares mais distantes, sob condições justas.”

Na mesma linha, Deyvid Bacelar, petroleiro, especialista do setor, reforçou o caráter estratégico e a necessidade de controle público sobre os combustíveis. “Combustível não é uma mercadoria qualquer. Ele impacta toda a economia. Sem controle público, o resultado é aumento de preços e mais desigualdade”.

 

Ao final da audiência, os participantes convergiram na avaliação de que a retomada de uma Petrobrás integrada, “do poço ao posto”, é fundamental para garantir soberania energética e estabilidade de preços, protegendo a população das oscilações do mercado internacional.

 

Frente parlamentar reforça debate sobre reestatização e soberania energética

 

Lançada nesta quarta-feira (15), no Salão Verde da Câmara dos Deputados, a Frente Parlamentar Mista em Defesa da Reestatização da BR Distribuidora, Liquigás e Refinarias da Petrobrás reuniu parlamentares, entidades sindicais e representantes da sociedade civil para retomar o debate sobre o controle público de ativos estratégicos do setor.

Coordenada pelo deputado federal Pedro Uczai (PT-SC), a iniciativa tem como foco a reestatização de empresas privatizadas nos últimos anos e a análise dos impactos dessas medidas sobre os preços dos combustíveis, o abastecimento nacional e a soberania energética. A construção da Frente contou com a participação da FUP, com apoio técnico do Ineep e do Dieese.

Durante o lançamento, a diretora da FUP Bárbara Bezerra destacou os efeitos diretos da privatização sobre os preços e a vida da população.

“Precisamos lembrar que, em 2019, a BR Distribuidora foi vendida e o grupo comprador manteve o direito de usar a marca Petrobrás. Hoje, não existe nenhum posto da Petrobrás, apesar do nome continuar sendo usado comercialmente. Em 2020, foi vendida a Liquigás, e vimos o preço do botijão disparar. Sai da distribuição a cerca de R$ 37 e chega, em alguns lugares, a R$ 155 para a população. Sempre alertamos que a privatização faria mal ao Brasil e, com a guerra no Oriente Médio, vimos aumentos de até 88% nas refinarias privatizadas. Precisamos de um Sistema Petrobrás integrado, do poço ao posto, que atenda aos anseios do povo brasileiro e à soberania energética”.

 

Crédito Imagem: Canva

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