Enquanto empresas de petróleo e gás, no Brasil e no exterior, encerram a temporada de divulgação de seus balanços do segundo trimestre com lucros bilionários, organizações da sociedade civil realizaram nesta quarta-feira (12), na Praia de Botafogo, no Rio de Janeiro, uma ação para chamar a atenção para o outro lado dessa conta: os prejuízos econômicos, sociais e climáticos que recaem sobre a população.
Batizada de “Coletiva de Imprensa dos Povos”, a ação aconteceu em frente às sedes da Eneva e da PRIO e reuniu representantes da sociedade civil e de comunidades afetadas. Com púlpito, bandeiras, cartazes e peças alusivas às principais empresas do setor, os participantes apresentaram um contraponto aos balanços financeiros divulgados pelas petroleiras nas últimas semanas.
A mensagem central da mobilização é que, enquanto Eneva, PRIO e Petrobras — ao lado das grandes petroleiras internacionais — lucram bilhões com a exploração de combustíveis fósseis, os custos dessa atividade são transferidos para a sociedade, seja por meio dos impactos da crise climática, dos eventos extremos cada vez mais intensos ou de seus efeitos sobre a economia e o custo de vida.
No Brasil, a Petrobras registrou R$ 52,4 bilhões de lucro líquido entre abril e junho, alta de 96,8% em relação ao mesmo período de 2025. A companhia também aprovou R$ 17,4 bilhões em dividendos e juros sobre capital próprio.
Os investimentos da empresa continuam fortemente concentrados nos combustíveis fósseis. No primeiro semestre, 84,6% dos investimentos foram destinados à Exploração e Produção, enquanto a área de Gás e Energias de Baixo Carbono recebeu US$ 203 milhões, equivalente a apenas 1,95% dos US$ 10,4 bilhões investidos pela companhia — sendo que a maior parte desse montante foi destinada ao gás fóssil.
A Eneva, uma das empresas escolhidas como alvo da ação desta quarta-feira, também indicou aumento de sua atividade termelétrica no segundo trimestre. Em comunicado ao mercado com informações operacionais do período, a companhia informou que sua geração bruta total atingiu 2.537 GWh no 2T26, crescimento de 35% em relação ao mesmo trimestre de 2025, impulsionada pelo maior despacho termelétrico.
“Ainda hoje a Eneva deve divulgar seus resultados do 2º trimestre, com geração bruta 35% maior que no ano passado, e mais queima de gás fóssil significa, consequentemente, mais lucro. E essa é a má notícia: a empresa comemora balanços recordes enquanto o clima e as populações mais vulneráveis pagam a conta. Tudo isso sob a sombra da decisão recente do TRF1, que manteve a suspensão de novas licenças da empresa no coração da Amazônia até que se garanta a proteção dos povos indígenas afetados. Não há lucro que justifique atropelar territórios indígenas e aprofundar a crise climática”, afirma João Cerqueira, diretor da 350.org Brasil.
O cenário de lucros elevados se repete entre algumas das maiores petroleiras do mundo. Segundo análise da Oxfam citada pelos organizadores, BP, Chevron, Eni, ExxonMobil, Shell e TotalEnergies devem somar cerca de US$ 45 bilhões em lucro líquido no segundo trimestre, quase o dobro dos US$ 23 bilhões registrados nos três primeiros meses do ano.
Lucros privados, prejuízos coletivos
Enquanto os resultados financeiros e operacionais beneficiam empresas e seus acionistas, os impactos dos eventos climáticos extremos atingem cidades e comunidades em todo o país Catástrofes climáticas causaram mais de R$ 550 bilhões em prejuízos diretos no Brasil na última década, segundo levantamento da Confederação Nacional de Municípios (CNM). Somente as enchentes de 2024 no Rio Grande do Sul deixaram 185 mortos, afetaram 2,4 milhões de pessoas e provocaram perdas estimadas em R$ 88,9 bilhões.
Para as organizações responsáveis pela ação, a expansão da exploração e do uso de petróleo e gás aprofunda uma crise que já afeta diretamente a população brasileira e contribui para intensificar eventos climáticos extremos.
“As petroleiras lucram bilhões com uma guerra absurda, e somos nós que pagamos a conta no clima, na luz e no prato. Elas gastam milhões em publicidade pra fingir que se importam, mas a verdade é simples: a crise climática tem patrocinadores, e esse super El Niño tem sócios. São essas empresas de combustíveis fósseis”, afirma Cerqueira.
A ação buscou justamente inverter a lógica tradicional dos anúncios corporativos: em vez de apresentar aos investidores quanto as empresas ganharam no trimestre, o “Comunicado de Imprensa dos Povos” apresentou a conta que fica para a sociedade.
Para os organizadores, os balanços bilionários do setor contrastam com os custos crescentes da emergência climática e reforçam a necessidade de acelerar uma transição energética justa, reduzir a dependência dos combustíveis fósseis e responsabilizar o setor pelos impactos associados à crise climática.
“A Petrobras não pode continuar tratando a crise climática como um problema para o futuro enquanto celebra lucros excepcionais no presente”, reforça Carolina Marçal, coordenadora de Projetos do ClimaInfo. “Os resultados financeiros da empresa mostram que há recursos e capacidade para liderar uma transição energética justa — mas isso exige mudar a prioridade: em vez de investir cada vez mais na expansão da fronteira do petróleo, é preciso usar sua força econômica para preparar o Brasil para um futuro além dos combustíveis fósseis”.
Uma Petrobras para a transição
Em 2025, o Observatório do Clima lançou o documento “A Petrobras de Que Precisamos”, que reúne propostas para que a companhia assuma papel de liderança em uma transição energética justa.
Entre as recomendações estão a priorização de investimentos em fontes de baixo carbono, a realocação de recursos previstos para novas refinarias e a ampliação dos investimentos em biocombustíveis, especialmente os de segunda e terceira geração, diesel verde (HVO) e combustível sustentável de aviação (SAF).
Para os organizadores da ação, os resultados financeiros recentes mostram que não falta capacidade econômica para essa transformação. A questão é quanto e onde as empresas escolhem investir enquanto os impactos da crise climática se tornam cada vez mais caros para a sociedade. Leia posicionamento aqui
Crédito Imagem: Matheus Vasconcelos