A descarbonização da frota pesada brasileira abre novas oportunidades para o setor de bioenergia, especialmente com o avanço de combustíveis renováveis capazes de substituir derivados fósseis no transporte de cargas, nas ferrovias e nas atividades agrícolas. Alternativas como biometano, etanol avançado e óleo vegetal hidrotratado (HVO), conhecido como diesel verde, ganham relevância como soluções para reduzir as emissões de gases de efeito estufa e a dependência do diesel.
Para Raphaella Gomes, CEO da New Gaia, plataforma de consultoria e investimentos, o Brasil possui vantagens competitivas para desenvolver esse mercado, resultado de décadas de investimentos na integração entre agricultura, energia e indústria. Segundo a executiva, a substituição de combustíveis fósseis em veículos e equipamentos de grande porte está entre as principais oportunidades para o setor de bioenergia nos próximos cinco a dez anos.
“A alimentação da frota pesada com biocombustíveis é uma oportunidade que ainda não está no centro das conversas, mas deveria estar. Caminhões pesados, ferrovias, máquinas agrícolas, esse segmento não vai ser eletrificado por bateria no curto prazo. Biometano, etanol avançado e HVO são as soluções disponíveis agora, rentáveis e escaláveis”, afirma.
Embora a eletrificação avance no setor de transportes, sua aplicação em determinadas operações pesadas ainda enfrenta desafios relacionados à autonomia das baterias, ao tempo de recarga e à infraestrutura disponível. Nesse cenário, os biocombustíveis podem atuar como alternativas complementares, especialmente em atividades que exigem elevada capacidade energética e longos períodos de operação.
Entre as soluções disponíveis, o biometano apresenta potencial de expansão. Produzido a partir da purificação do biogás gerado pela decomposição de resíduos orgânicos, o combustível pode substituir o gás natural fóssil e abastecer caminhões e outros veículos equipados com motores compatíveis. Sua produção também permite aproveitar resíduos agroindustriais, urbanos e da pecuária, contribuindo para a economia circular.
Segundo Raphaella, o Brasil produz atualmente cerca de 3 milhões de metros cúbicos de biometano por dia, diante de um potencial estimado superior a 100 milhões de metros cúbicos diários. Apesar das perspectivas de crescimento, a expansão depende de investimentos em infraestrutura, ampliação das redes de distribuição e maior previsibilidade regulatória.
“É uma realidade que está se consolidando, mas que ainda não chegou à escala que deveria”, avalia.
Além da redução das emissões, a utilização de combustíveis renováveis pode contribuir para a segurança energética nacional. Ao substituir parte do diesel e de outros derivados fósseis, o país pode diminuir sua exposição às oscilações internacionais de preços e aos impactos de conflitos geopolíticos sobre o abastecimento.
“Para mim descarbonização não é um custo que o setor produtivo precisa absorver por pressão regulatória ou reputacional. É, antes de tudo, uma estratégia de segurança energética”, destaca a executiva.
Outro benefício está na possibilidade de diversificação das receitas do setor agroindustrial. A produção de biometano, por exemplo, pode ser integrada à fabricação de biofertilizantes, aproveitando subprodutos do processo e reduzindo a dependência de insumos importados.
Entretanto, a consolidação desse mercado ainda exige superar obstáculos relacionados à infraestrutura logística, à competitividade dos combustíveis e à atração de investimentos. Para Raphaella, a estabilidade das regras e a estruturação de projetos economicamente viáveis são fundamentais para ampliar a participação do capital privado.
A executiva também defende que a transição energética seja tratada como uma estratégia de desenvolvimento industrial, com políticas de longo prazo capazes de integrar produção agrícola, inovação tecnológica e infraestrutura.
Com experiência consolidada na produção de biocombustíveis e disponibilidade de matérias-primas, o Brasil reúne condições para ampliar a participação de fontes renováveis no abastecimento da frota pesada. A velocidade dessa transformação, contudo, dependerá da capacidade de converter o potencial produtivo em soluções competitivas, acessíveis e disponíveis em escala comercial.