Carros só a gasolina abaixo de 50%: o que esse marco exige dos postos?

*Por Roberto James

Uma notícia ganhou espaço nas redes sociais: os carros movidos exclusivamente a gasolina ficaram abaixo da metade das vendas mundiais de veículos novos. Para quem trabalha com combustíveis, o número chama atenção. Mas uma decisão empresarial precisa de mais do que uma manchete. Por isso, muito cuidado de onde você busca sua informação e como e quais interesses elas são passadas.

É preciso entender o que está sendo contado, qual período foi analisado e como essa mudança pode chegar ao nosso mercado. Por isso trago detalhes das notícias que impulsionaram a publicação para que o revendedor entenda os números por trás da afirmação.

Em reportagem publicada em 2 de outubro de 2026, a SBS informou que o jornal japonês Nikkei divulgou dados da Mobility Global: os modelos exclusivamente a gasolina responderam por 49% das vendas globais no primeiro semestre de 2026, contra 73% em 2021. Foram 20,25 milhões de unidades, queda de 10% sobre o mesmo semestre de 2025. A notícia apresenta o resultado como o primeiro registro abaixo de 50%.

São 24 pontos percentuais de perda de participação desde 2021. É uma mudança relevante na composição das vendas. O recorte, porém, é gasolina sem sistema híbrido: não reúne todos os veículos com motor a combustão.

Na reportagem de 5 de outubro de 2026, a Electrek apresentou a seguinte divisão, atribuída ao levantamento da Mobility Global divulgado pelo Nikkei:

O híbrido convencional continua abastecendo. O híbrido plug-in pode utilizar eletricidade e combustível. O diesel também fica fora da categoria “exclusivamente a gasolina”. Portanto, o complemento dos 49% não representa uma maioria de carros que dispensam combustível.

Há outro cuidado: vendas de veículos novos não são a frota em circulação. O levantamento mostra o perfil das compras realizadas em seis meses. Não informa que metade dos carros nas ruas deixou de abastecer, nem permite calcular, sozinho, uma redução proporcional na venda de gasolina dos postos. O que não deixa de ser relevante para o setor entender que o cenário está promovendo mudanças e que em algum momento isso pode impactar o crescimento do setor até a curva abaixar e iniciar perda de volume de vendas, caso esse cenário ainda continue.

Para avaliar consumo, precisamos considerar também a renovação da frota, a quilometragem percorrida, a eficiência dos veículos e, nos plug-in, a frequência de recarga. Esses dados não foram expostos na publicação feita nas redes sociais. Veja a importância de se informar melhor antes de qualquer decisão.

Os dados oficiais europeus ajudam a dimensionar a mudança. Em publicação de 24 de setembro de 2026, a ACEA (Association des Constructeurs Européens d’Automobiles, em francês) informou que, entre janeiro e agosto, a União Europeia registrou 1.641.333 carros elétricos a bateria, contra 1.634.733 carros a gasolina. Ambos apareceram com 21,7% de participação, por arredondamento. Os híbridos foram a maior categoria, com 36,6%.

Esse resultado pertence à União Europeia e ao período de oito meses. Não pode ser apresentado como retrato de todos os países ou do mesmo semestre do levantamento mundial. Mesmo assim deve-se estar atento aos números europeus por se tratar de um mercado significativo.

A Agência Internacional de Energia também oferece contexto. No relatório publicado em 30 de julho de 2026, a IEA apontou participação de 24% para carros elétricos nas vendas globais do primeiro semestre e projetou 29% para o ano completo. Sua categoria inclui elétricos a bateria e híbridos plug-in. A projeção anual ainda não é um resultado realizado.

Por isso, os 24% da IEA não devem ser comparados diretamente aos 17% de elétricos a bateria apresentados pela Electrek. São fontes, bases e categorias diferentes. A IEA também destacou a exposição do transporte rodoviário à volatilidade dos combustíveis e a possibilidade de a crise energética acelerar a eletrificação. Isso ajuda a entender o cenário, mas não isola uma única causa para a mudança nas compras.

No Brasil, temos nossa própria trajetória. Em 8 de outubro de 2026, a ABVE divulgou 53.126 emplacamentos de eletrificados leves em setembro, equivalentes a 19,8% do mercado, contra 9,2% um ano antes. Foram 22.246 elétricos a bateria, 20.202 híbridos plug-in e 10.678 híbridos convencionais, incluindo os flex. A definição da entidade exclui os micro-híbridos.

Quase um em cada cinco veículos leves novos emplacados naquele mês foi eletrificado. Mas parte desse grupo continuará utilizando gasolina ou etanol. A participação também recuou em relação aos 21,8% de agosto: o avanço anual não elimina as oscilações mensais. O mercado a combustão ainda permanece como primeira opção, mas os carros novos, mais tecnológicos e com maior rendimento escoram na tecnologia elétrica a possibilidade de diminuir ainda mais o uso de combustíveis fósseis e carburantes. Proporcionando ainda mais economia, menos emissão que consequentemente se tornará menos visitas aos postos de combustíveis.

Minha leitura para a revenda é que o planejamento precisa acompanhar essa mudança de composição. O posto deve observar quais veículos circulam na sua região, como seus clientes utilizam o carro e quais serviços podem manter a operação na rota dessas pessoas. Instalar recarga exige estudar demanda, capacidade elétrica, investimento, ocupação e margem. Um número mundial não responde se determinado endereço terá utilização suficiente para sustentar um carregador.

Também vale examinar o que o cliente encontra durante a parada: conveniência, café, alimentação, banheiros, conforto e atendimento. Se a relação com o posto depender apenas da necessidade de combustível, uma mudança nessa necessidade pode reduzir as oportunidades de contato.

A transformação vai chegar em ritmos diferentes a cada praça. A resposta empresarial precisa combinar acompanhamento dos dados com conhecimento do cliente e contas bem-feitas. Lembrando que a partir de informações mais precisas e bem dimensionadas a realidade do mercado podem ajudar a decisões mais complexas de investimento. CUIDADO com as informações de internet e redes sociais sensacionalistas que usam meias verdades para impor seu pensamento.

O marco dos 49% merece atenção. Para o revendedor, sua utilidade está em provocar decisões: o que precisamos começar a preparar hoje para continuar relevantes na rotina dos nossos clientes? Você está preparado? Seu sindicato tem pautado temas como esse para reflexão sem direcionar o assunto, mas discutindo a realidade dos fatos? Você tem consultado fontes que tratam os dados de forma isenta, mesmo que aquilo não te agrade? Esses questionamentos devem ser feitos por cada um de vocês a cada momento.

Quer entender melhor do mercado? Me acompanhe aqui no Portal Petrus, com artigos mensais e também no Blog do Errejota – Onde a informação não tem partido, tem a missão de informar a verdade dos fatos.

 

 

*Roberto James é especialista em comportamento do consumidor e gestão comercial. Palestrante, autor de livros e pesquisador. Colunista da Revista Petrus. Com vasta experiência no varejo, atacado e distribuição. Tem ajudado empresas a entender a dinâmica do consumidor e como preparar equipes para se adaptar a esse novo mercado.

 

 

 

 

 

 

 

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