O problema que vamos abordar aqui é real e antigo. Não é teoria nem conjectura de mercado. Estamos falando de uma prática que ultrapassa a esfera da insatisfação do consumidor e chega ao cerne da relação de confiança entre o dono de posto, o dono de loja de conveniência e o cliente final. A adulteração das bombas de combustíveis e o fornecimento de quantidade menor do que indica o visor é uma realidade que já foi denunciada reiteradamente no Blog do Errejota e apoiada pelas entidades que representam o setor como a Fecombustíveis.
E não se trata de um caso isolado. A adulteração de bombas e irregularidades no volume efetivamente entregue existe há muitos anos e aparece em diferentes cidades brasileiras como um dos maiores desafios de integridade do mercado de combustíveis e conveniência. A falta de transparência de alguns estabelecimentos contribui para uma percepção negativa generalizada que prejudica toda a cadeia.
As autoridades de defesa do consumidor estão reagindo. No Rio de Janeiro, o Procon Carioca iniciou operações com foco na chamada Operação Posto Sem Roubo e mapeamento dos estabelecimentos autuados. Em poucos meses foram identificados e interditados diversos postos que apresentavam adulteração nas bombas e entrega de combustível em quantidade inferior à indicada no visor. Para detectar essas irregularidades o órgão utiliza inclusive tecnologia de cliente misterioso que permite identificar fraudes de forma sigilosa e técnica. Essa operação resulta não só em autuações, mas também em cassação de alvarás de funcionamento de estabelecimentos que insistem em práticas fraudulentas.
Em João Pessoa a atuação do Procon municipal também ganhou destaque em 2025 com a interdição de um posto após constatar que o valor cobrado no visor era diferente daquele efetivamente cobrado no abastecimento. Em um caso o preço exibido no painel era R$ 5,89 por litro e o consumidor foi cobrado R$ 5,99, o que, multiplicado pelo volume abastecido diariamente, representa um lucro indevido significativo para o estabelecimento e prejuízo direto ao consumidor.
Esse tipo de ação em defesa do consumidor é extremamente relevante para o setor como um todo por duas razões operacionais fundamentais. Primeiro porque ela evidencia que preço muito baixo pode ter uma explicação escondida por trás. Não é incomum ver postos que anunciam valores aparentemente imbatíveis na tentativa de atrair fluxo de clientes. Mas quando o preço é artificialmente baixo por meio de práticas ilegais, o revendedor honesto acaba pagando o preço por uma escolha equivocada do cliente baseada apenas no número exibido no visor.
Segundo porque essa fiscalização mostra claramente que o revendedor que trabalha direitinho, que paga os impostos e que entrega exatamente aquilo que está no visor acaba injustamente prejudicado em sua imagem. Muitos consumidores, ao verem preços mais altos em um posto limpo, organizado e que trabalha dentro das regras, podem pensar que ele está sendo oneroso ou lucrando além da conta. Quando na verdade o revendedor que trabalha certo, em muitos casos, vende por um preço um pouco mais alto e ganha menos do que aquele que pratica fraude. Isso cria um ambiente de concorrência desigual e injusto que afeta diretamente o varejo de combustíveis e conveniência.
Sobre tecnologia e regulação há um movimento importante que merece ser lembrado aqui. O Inmetro e as fabricantes de bombas de combustíveis desenvolveram há algum tempo uma tecnologia de bomba antifraude que torna muito mais difícil a adulteração do equipamento para fins de entregar quantidade menor do que a indicada no visor. Essa tecnologia existe e está disponível. Hoje todas as principais fabricantes já têm essa tecnologia em seus modelos. A questão é que o mercado conseguiu adiar por anos o calendário de implementação obrigatória dessa tecnologia antifraude. Mesmo sendo um avanço óbvio no combate às práticas ilegais, a implementação foi postergada e ainda não é uma realidade em todos os postos do Brasil.
Do ponto de vista do dono de posto e do dono de loja de conveniência essa evolução tecnológica representa uma oportunidade. Ela ajuda a reforçar a confiança do consumidor de que aquilo que ele vê é aquilo que ele recebe. Isso é essencial para a reputação de quem trabalha dentro das normas. E é algo que favorece o mercado como um todo ao reduzir a assimetria e desincentivar práticas que, historicamente, corroem a competitividade e a confiança do cliente.
Existe um ditado que expressa bem essa situação, “O que me preocupa não é o grito dos canalhas, mas o silêncio dos homens de bem”. O revendedor sério não pode simplesmente assistir em silêncio ao aumento dessa onda negativa. Pelo contrário. É fundamental que ele se posicione nas redes sociais, demonstre transparência e convoque seus clientes a conhecer o processo de aferição das bombas. Fazer testes públicos, mostrar laudos e convidar os clientes a ver como funcionam esses testes de aferição ajuda a educar o mercado e a comunidade. Quanto mais clientes souberem como esse processo funciona, melhor será para o mercado e especialmente para aqueles que trabalham corretamente.
A revenda não deve ficar calada vendo essa onda negativa subir sobre os milhares de postos que trabalham direito e que investem em conformidade, em experiência do cliente e em transparência. Falar sobre isso de forma proativa é uma forma de valorizar o negócio, reforçar a confiança e, ao mesmo tempo, contribuir para um mercado mais justo e mais competitivo. Os revendedores e proprietários de loja de conveniência que se posicionarem com clareza nesse debate não estarão apenas defendendo seus negócios. Fortalecerão toda a cadeia.
Roberto James é um especialista em consumo e varejo, dedicado a desvendar as novas dinâmicas do mercado. Com uma visão provocadora, ele desafia empresas a abandonarem modelos antigos e a se adaptarem à mentalidade das novas gerações, transformando desafios em oportunidades de crescimento.
