Por Francisco Neves*
O comportamento do preço do diesel, antes e depois da guerra, ajuda a colocar o debate sobre os combustíveis no Brasil em perspectiva econômica racional, com fundamento em dados oficiais. Os boletins da ANP, edições 09 a 12 de 2026, de 28 de fevereiro a 21 de março de 2026, indicam que o produto registrou alta relevante nas últimas semanas, passando de R$ 6,09 por litro, no fim de fevereiro e antes da guerra, para R$ 7,35 em meados de março, a partir do conflito em andamento no Oriente Médio. A trajetória de aumento foi progressiva, sem rupturas ou descontinuidades, tendo como referência as variações nos preços internacionais. No mercado global, o diesel acumulou altas de até 37% no mesmo intervalo. No Brasil, o avanço foi de aproximadamente 20,26%, evidenciando que o repasse ocorreu de forma parcial e não automática.
Como se observa, no cenário internacional, os aumentos foram significativamente mais elevados, refletindo restrições de oferta, encarecimento do frete e maior risco geopolítico. No Brasil, entretanto, o repasse dessas pressões ocorre de forma gradativa e parcial. Esse diferencial não é acidental. Ele decorre das peculiaridades do mercado brasileiro, do modelo próprio de formação de preços que, mesmo inserido em um mercado globalizado, possui mecanismos capazes de amortecer choques externos e evitar respostas desordenadas.
É justamente esse o ponto que precisa ser qualificado no debate público. A elevação de preços em um ambiente de instabilidade internacional não pode ser automaticamente interpretada como conduta reprovável de qualquer que seja o agente econômico. Quando ocorre de forma justificada, ela indica que o sistema está operando dentro de parâmetros racionais e razoáveis, pois a escassez eleva os preços, o que faz reduzir o consumo e em seguida volta a equilibrar a relação de oferta e demanda em patamares de preços, economicamente condizente com a nova lógica comercial de oferta e demanda pressionada pela escassez global do diesel.
O risco, neste momento, está menos nos preços e mais na garantia de suprimento, bem como na forma como esse cenário é apresentado ao grande público e consumidores. Narrativas que sugerem descontrole dos preços, que buscam apontar culpados, criminalizar agentes econômicos, de maneira inconsequente, ampliam as dificuldades e instabilidade quanto à segurança do abastecimento e lógica econômica de variação dos preços e acabam por agravar os problemas, dificultando a ação racional dos agentes econômicos e consumidores.
O momento exige outro caminho, é necessário fortalecer a coordenação entre poder público e os agentes econômicos, orientar para um consumo cada vez mais racional frente à crise. A resposta governamental em reduzir custos fiscais e regulatórios é positiva, mas insuficiente. No custo dos combustíveis hoje persiste a “bolsa usineiro” do RenovaBio, estimado em 3,5 bilhões de reais para 2026, sem benefício público, o qual deveria compor a cesta de redução dos custos regulatórios com a suspensão dessa obrigação. É desejável ainda a ampliação da transparência no planejamento da oferta e demanda de curto prazo, com a adequada informação dos mecanismos que impactam nos preços, o monitoramento técnico e equilibrado do mercado e a preservação das condições de concorrência e atuação dos agentes econômicos.
O Brasil dispõe hoje de um sistema de produção, importação, armazenamento, movimentação e distribuição de combustíveis robusto, estruturado, profissionalizado e capaz de responder aos choques externos de forma positiva, sem romper sua lógica de segurança do suprimento nacional a preços razoáveis no dado contexto. Isso não elimina os impactos sobre o consumidor e a economia popular, mas contribui para a compreensão real de todos e uma postura equilibrada e racional no enfrentamento da crise em curso com unidade e confiança, aspectos essenciais em momentos de incerteza.
Em vez de alimentar a ideia de caos e superproteção do estado, é preciso reconhecer a realidade com fundamento nas evidências que os dados apresentam e unir a sociedade no compromisso da colaboração de todos. Não vivemos nenhum colapso no mercado de combustíveis, nem criminalização generalizada, mas dificuldades decorrentes das guerras nos principais centros de produção de petróleo do mundo, que impactam a economia brasileira, a qual é integrada ao mercado global. A formação dos preços continua a seguir a dinâmica do equilíbrio econômico da oferta e da demanda, conforme estabelecido no regime regulatório e jurídico do país.
*Francisco Neves, Diretor-executivo da ANDC