A guerra recomeça com a queda do império

*Por Antônio Carlos Morad

A recente reabertura das tensões em torno do Estreito de Ormuz pode ser compreendida muito fortemente sob a ótica militar, o Irã ganhou esse embate.

É indispensável observar a sequência dos acontecimentos diplomáticos que culminaram na assinatura do Memorando de Entendimentos (MoU) entre Estados Unidos e Irã. Em negociações dessa magnitude, envolvendo duas das mais relevantes potências geopolíticas do planeta, é razoável concluir que nenhuma cláusula é fruto de improvisação. Cada ponto submetido ao acordo decorreu de intensas tratativas, concessões recíprocas e ajustes destinados a tornar o documento aceitável para ambas as partes (em tese).

Sob essa perspectiva, o conteúdo do memorando sugere que Teerã obteve avanços diplomáticos relevantes. Essa leitura conduz à interpretação de que, ao menos no plano político-estratégico, o Irã saiu extremamente fortalecido desse conflito. É precisamente nesse ponto que reside o verdadeiro foco da atual instabilidade.

A presença de Israel, também derrotada Nessa Guerra, e com planos pretenciosos de expansionismo territorial (a ideia de promessa de Deus a Abraão quanto ao Grande Israel), cuja percepção de segurança frequentemente diverge da lógica de acomodação diplomática adotada por outros participantes, adiciona uma variável de elevada complexidade ao cenário. Paralelamente, para uma potência global como os Estados Unidos da América do Norte, a preservação da credibilidade estratégica constitui elemento central de sua política externa. Em relações internacionais, a percepção de perda de capacidade de dissuasão pode produzir efeitos muito além do teatro imediato das operações.

Sob essa ótica, é possível interpretar a retomada da pressão norte-americana como uma tentativa de reequilibrar a correlação de forças construída após o memorando, mediante a imposição de novas condições políticas e estratégicas. O resultado prático é a reabertura de um ciclo de tensão que devolve o Estreito de Ormuz ao centro da geopolítica mundial.

Durante décadas, Ormuz foi tratado como uma rota marítima internacional cuja estabilidade interessava às grandes potências. Hoje, entretanto, a realidade parece distinta. O estreito deixou de representar apenas uma passagem comercial para se transformar em um ativo estratégico cuja capacidade de influência é exercida, em grande medida, pelo Irã. Em outras palavras, Ormuz passou a integrar o próprio sistema de poder regional, alterando significativamente a dinâmica de equilíbrio entre Washington, Teerã e seus respectivos aliados.

Assim, a guerra recomeçou nessa seara de poder hegemônico que não existe mais.

 

*Antônio Carlos Morad é advogado titular do escritório Morad Advocacia Empresarial.

 

 

 

 

 

 

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