A possível intensificação do El Niño no segundo semestre de 2026 pode aumentar a demanda brasileira por gás natural, especialmente diante de um eventual crescimento do acionamento de usinas termelétricas. O fenômeno pode aprofundar o período seco no Norte e Nordeste e provocar chuvas mais irregulares no Sul e Sudeste, além de aumentar a frequência de ondas de calor no Sudeste e Centro-Oeste.
Segundo Marcos Mortari, responsável pela precificação de gás natural da Argus, ainda é difícil estimar os impactos sobre o setor energético, já que os efeitos do fenômeno variam entre as regiões. “Existe a possibilidade de uma maior necessidade de acionamento de térmicas para a garantia da segurança do sistema, o que consequentemente elevaria a necessidade de suprimento de gás natural no país”, afirma.
Apesar da possibilidade de aumento da demanda, Mortari avalia que o mercado brasileiro está mais preparado para responder a um eventual crescimento do despacho termelétrico. Os níveis dos reservatórios hidrelétricos, a diversificação da matriz energética, medidas preventivas adotadas pelas autoridades e o crescimento da produção nacional são fatores que ajudam a reduzir a pressão sobre o gás.
O principal risco, segundo ele, está na infraestrutura. “Atualmente vemos um risco de gargalo logístico maior do que de disponibilidade efetiva de molécula no mercado brasileiro”, diz. Limitações no escoamento e, principalmente, no transporte podem gerar estresse em determinados trechos e pontos de entrega para termelétricas quando houver despachos simultâneos.
Nesse cenário, as importações de gás natural liquefeito (GNL) devem continuar sendo importantes para atender à demanda flexível das térmicas. “Caso o El Niño exija maior intensidade na dinâmica dos despachos térmicos, é natural que observemos uma maior necessidade de importações de GNL”, afirma.
O cenário internacional também pode pressionar os preços. Segundo Mortari, o indicador da Argus para cargas de GNL importado colocadas no Brasil teve média de US$ 18,41/milhão de BTU entre 1º e 12 de agosto, ante menos de US$ 10 antes do início da guerra entre Estados Unidos e Irã.
No mercado doméstico, a oferta e a demanda devem continuar determinando os preços de curto prazo. Uma maior utilização das térmicas também pode afetar o suprimento para outros setores, especialmente a indústria. “A maior necessidade das térmicas pode afetar diretamente o suprimento de outros setores, como a própria indústria, e os próprios níveis de preços do gás natural”, explica.
Para o especialista, os desafios são estruturais e vão além do El Niño, devido à forte associação da produção de gás ao petróleo e à ausência de grandes estruturas de armazenamento. No início de 2027, uma melhora das condições hidrológicas poderia levar à normalização gradual da demanda. Caso o fenômeno persista, porém, a pressão sobre o mercado pode continuar nos primeiros meses do ano.
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Matéria feita por Redação Portal Petrus