Nova rota de biometano conecta interior e litoral de SP para abastecer caminhões

A expansão dos caminhões movidos a biometano no Brasil depende de um fator que vai além da oferta de veículos: a disponibilidade de infraestrutura para abastecimento nas rodovias. Embora a produção brasileira do combustível tenha crescido aproximadamente 75% em 2025, alcançando 1,06 milhão de metros cúbicos por dia, segundo a Associação Brasileira do Biogás e do Biometano (ABiogás), transformar esse potencial energético em operações de transporte exige investimentos que integrem veículos, fornecimento de combustível e planejamento logístico. Esse desafio foi um dos principais temas destacados pela Scania durante o evento realizado pela TransJordano, em 7 de outubro, em Sumaré (SP), para marcar o início das operações do Corredor Verde, projeto que cria um eixo de abastecimento de aproximadamente 450 quilômetros entre Ribeirão Preto, Sumaré e Cubatão, com acesso à região do Porto de Santos.

André Gentil, gerente de Vendas de Soluções de Transporte a Frotistas da Scania Brasil, lembrou que, quando a montadora começou a desenvolver sua estratégia de caminhões a gás no país, por volta de 2018, um dos principais questionamentos era justamente a ausência de locais preparados para fornecer biometano nas estradas. Na avaliação do executivo, a criação de uma estrutura que poderá ser utilizada também por outras transportadoras representa um avanço relevante para a utilização comercial desses veículos. Ao recordar as discussões iniciais sobre o potencial brasileiro do combustível, Gentil afirmou: “Existe tanto potencial de biometano no Brasil, mas ele ainda não chega aos postos e não consegue abastecer o caminhão”. Durante o lançamento, ao observar a estrutura inaugurada pela TransJordano, destacou: “E olha hoje: ele está no posto”.

O avanço da infraestrutura acontece em um mercado que ainda apresenta desafios de expansão. De acordo com dados da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea), divulgados pela imprensa especializada, os emplacamentos nacionais de caminhões a gás recuaram 33,3% entre janeiro e julho de 2026, na comparação com o mesmo período de 2025, passando de 507 para 338 unidades. Por outro lado, a Scania anunciou, em agosto, uma previsão comercial de 750 caminhões a gás para 2026, considerando vendas realizadas e unidades em carteira. Embora esses indicadores tenham metodologias diferentes, eles demonstram a importância de criar condições para que a tecnologia avance de maneira consistente. Na TransJordano, o projeto contempla 100 caminhões Scania G 460 6×4 movidos a biometano, com autonomia aproximada de 700 quilômetros, além de três pontos de abastecimento que serão operados pela GarageLog, empresa do grupo.

Segundo Jordano Bessa, diretor de Novos Negócios da TransJordano, o Corredor Verde surgiu justamente da necessidade de estruturar uma solução completa, capaz de tornar viável a utilização do biometano nas operações da empresa e ampliar essa possibilidade para outras transportadoras. O executivo explicou que os estudos começaram em junho de 2025, quando a companhia passou a avaliar alternativas energéticas para sua frota e identificou que a aquisição dos veículos precisaria estar acompanhada de infraestrutura compatível com suas principais rotas. “Quando olhamos para isso, pensamos: a gente já tem um modelo de negócio; não é simplesmente abrir um novo ponto de abastecimento. Podemos olhar para a nossa malha viária, para os clientes que atendemos e ver o que é possível fazer”, afirmou durante o evento, ao explicar como a experiência da GarageLog contribuiu para a estruturação do projeto.

A iniciativa também está relacionada às metas ambientais da transportadora e de seus clientes. Com a frota completa, a TransJordano estima percorrer aproximadamente 5,5 milhões de quilômetros por ano utilizando biometano, o equivalente a cerca de 17% de sua quilometragem anual. A expectativa é evitar aproximadamente 6.486 toneladas de CO₂ equivalente por ano, conforme indicadores do projeto submetidos à verificação independente da Bureau Veritas. A infraestrutura será implantada gradualmente, com o primeiro ponto em Sumaré, seguido pelas unidades de Ribeirão Preto, em novembro, e Cubatão, em dezembro de 2026.

Para Jordano Bessa, o diferencial está na possibilidade de disponibilizar ao mercado uma estrutura originalmente concebida para as operações da própria empresa. “O que conseguimos oferecer hoje não é só para os nossos clientes, mas para o Brasil. Nosso lema é descarbonizar a logística brasileira”, destacou. Ao reunir tecnologia veicular, produção de combustível renovável e abastecimento compartilhado, o Corredor Verde busca demonstrar que a transição energética no transporte de cargas precisa avançar de forma integrada, com soluções capazes de atender às exigências operacionais das transportadoras e contribuir para a redução das emissões ao longo das cadeias logísticas.

 

Crédito Imagem: Divulgação

ÚLTIMAS NOTÍCIAS

CATEGORIAS