A anunciada saída dos Emirados Árabes Unidos (EAU) da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep) e da Opep+, a partir do próximo dia 1º de maio, vai redefinir o cenário energético global.
Para a coordenadora-geral da Federação Única dos Petroleiros (FUP), Cibele Vieira, no curto prazo, com a guerra do Irã e o bloqueio do Estreito de Ormuz, alterações na oferta de petróleo serão limitadas por conta das dificuldades de exportação. Mas, a médio e longo prazos, a saída dos Emirados do cartel e o consequente enfraquecimento da Opep prometem remodelar completamente a dinâmica do mercado de petróleo.
O cenário ficará mais incerto, a começar pela própria regulamentação do mercado – papel que na prática era exercido pela OPEP. “Liberados das cotas, os Emirados poderão cumprir a estratégia de aumentar sua produção dos atuais 3,2 milhões para 5 milhões de barris/dia, ampliando receitas e participação de mercado”, diz Cibele, observando que o aumento da oferta internacional de petróleo deverá resultar em redução de preços.
Haverá reflexos no Brasil. “A queda dos preços do barril poderá impactar o faturamento de exportação da Petrobrás e acirrar a concorrência no mercado, com os Emirados Árabes passando, por exemplo, a disputar com o Brasil a oferta de petróleo para a China”.
Porém, a Petrobrás tem a vantagem de ser um sistema integrado: ganha na exportação com o barril em alta, e compensa no refino e venda interna de derivados quando o preço do óleo cai. É o “hedge natural” que a estatal tem.
Também para o economista do Departamento Intersindical de Estatísticas e Estudos Socioeconômicos (Dieese – subseção FUP) Cloviomar Cararine, “estamos assistindo a um novo desenho geopolítico: EUA questionando organizações internacionais, Oriente Médio em rearranjo, e agora EAU saindo da OPEP. Isso sinaliza a leitura de que a transição energética vai reduzir a demanda por petróleo, por conta das novas fontes de energia, mas não será tão rapidamente“.
“O histórico de transições de novas fontes de energia, como o carvão, por exemplo, mostra que o mineral continua sendo muito consumido. Isso porque o aumento da demanda por energia no mundo cresce tanto que as novas fontes vêm suprir o aumento das necessidades de mercado; elas acabam não substituindo as já existentes; coexistem”, observa Cararine, afirmando que, com isso, aumentam mais as incertezas no processo de redesenho de uma nova ordem global, onde o petróleo não morre, mas perde o monopólio.
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