A recente crise de abastecimento causada pelas tensões no Oriente Médio e que levaram ao fechamento do estreito de Ormuz evidenciou a dependência de petróleo e derivados nas principais economias mundiais. Segundo estimativas da S&P Global Energy, os estoques de petróleo registraram em abril a maior queda da história, com redução de cerca de 200 milhões de barris em um único mês.
Com isso, a transição energética e a busca por combustíveis mais sustentáveis voltaram ao centro do debate público, impulsionando ainda mais o mercado de biocombustíveis, no qual o Brasil se destaca como um dos principais produtores globais. Segundo levantamento da Redirection International, especializada em assessoria de fusões e aquisições (M&A), o país já consolidou sua posição no setor de bioenergia, apresentando um crescimento estrutural sustentado pelo agronegócio, política pública e pela demanda internacional por energia limpa, com uma taxa de crescimento anual média estimada em 9% para os próximos anos.
De acordo com o levantamento, o segmento de biocombustíveis passa por um momento de expansão operacional, impulsionado por políticas públicas de incentivo como a implementação do B15 – que determina a mistura obrigatória de 15% de biodiesel no litro do óleo diesel – por exemplo, o que elevou a produção e o consumo de biodiesel no país, com demanda estimada em 11 milhões de metros cúbicos somente em 2026. A previsão é que até 2030 o índice obrigatório chegue a 20% (B20), ampliando ainda mais o consumo interno do biodiesel no país.
Neste contexto, o setor de biocombustíveis vem atraindo novos investimentos, estimados entre R$ 107 bilhões e R$ 108 bilhões nos próximos dez anos. Apenas em 2024, foram mapeados cerca de R$ 42 bilhões em aportes, em especial nas cadeias do etanol, biodiesel e combustíveis sustentáveis de aviação (SAF). “O setor de biocombustíveis no Brasil entra em um novo ciclo de consolidação, impulsionado por crescimento estrutural da demanda e pela necessidade de escala e eficiência operacional, apesar de desafios relevantes, como o custo de capital elevado, volatilidade de insumos e maior complexidade regulatória”, destaca Adam Patterson, economista e sócio da Redirection International.
Com o mercado aquecido, as atividades de fusões e aquisições também seguem em ritmo acelerado, com 95 transações somente no ano passado, segundo a KPMG, no setor macro de energia. Adam Patterson destaca que este crescimento robusto exige capital, escala e eficiência operacional, fatores que favorecem as transações de M&A, que buscam principalmente a verticalização da produção (do campo ao posto) e a integração com a produção de biológicos e bioestimulantes, por exemplo. “M&A é a ferramenta central para capturar crescimento e resolver ineficiências estruturais do setor”, ressalta Patterson.
Ele explica que as empresas brasileiras lideram a consolidação recente do segmento, mas os investidores estrangeiros seguem ativos, representando cerca de 50% das operações em energia. Além de players estratégicos, fundos de investimento e de Private Equity também seguem de olho no mercado brasileiro, sobretudo nos segmentos de etanol de milho, biodiesel e de biogás e biometano, que registrou aproximadamente 13 operações de M&A recentemente.
“Observamos um crescente interesse de investidores estratégicos e financeiros, incluindo novos grupos internacionais que enxergam o Brasil como uma plataforma global de bioenergia. Por isso, acreditamos que o setor deve registrar uma nova onda de transações nos próximos anos, com foco em integração, ganho de escala e captura de valor ao longo da cadeia produtiva”, explica Adam Patterson.
Uma das empresas que vem apostando nesta estratégia é a Raízen que em 2024 anunciou novas aquisições e a expansão em bioenergia, visando ampliar a escala e eficiência operacional. Outras companhias como a 3tentos, Tereos, Jalles Machado e Uisa, por exemplo, também se destacam entre os principais produtores ativos em M&A. Além da Petrobrás, que adotou como estratégia o reposicionamento energético, aumentando a exposição a renováveis e a integração de todo o processo produtivo.
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