O custo oculto da ducha grátis nos postos de combustíveis

A oferta de ducha gratuita em postos de combustíveis, prática amplamente adotada como estratégia de atração de clientes, pode não representar o benefício que aparenta à primeira vista. Para especialistas do setor, o modelo pode esconder custos operacionais relevantes e gerar impacto direto na rentabilidade dos negócios.

Segundo Márcia Santos, da Aliare Consultoria, a percepção de gratuidade não corresponde à realidade financeira da operação. “A ducha não é grátis. O posto opera com margens muito apertadas por litro e, quando oferece esse benefício atrelado ao abastecimento, está assumindo um custo que nem sempre é compensado no volume de consumo ou na fidelização do cliente”, afirma.

Na prática, muitos postos utilizam a ducha como um diferencial competitivo atrelado ao abastecimento, com a expectativa de aumentar o fluxo de clientes e estimular a recorrência. No entanto, a especialista alerta que o retorno nem sempre se concretiza na proporção esperada.

“Em muitos casos, o ticket médio do abastecimento não cobre o custo indireto do serviço oferecido. É uma estratégia que parece simples, mas que pode comprometer a eficiência financeira do posto ao longo do tempo”, explica.

Outro ponto destacado é a limitação operacional das lavagens manuais, que frequentemente não conseguem absorver a demanda gerada por esse tipo de benefício, especialmente em horários de pico. Além disso, muitos consumidores procuram o serviço em horários alternativos, quando realmente têm tempo disponível, e nem sempre conseguem ser atendidos. Isso reduz a efetividade da estratégia como ferramenta de experiência do cliente.

Para Márcia, a evolução do setor passa pela substituição de práticas baseadas apenas em percepção de valor por modelos mais estruturados e sustentáveis. “Não se trata de eliminar benefícios ao consumidor, mas de pensar em alternativas mais inteligentes. Programas de lavagem com desconto, serviços automatizados e ofertas estruturadas tendem a gerar mais equilíbrio entre atração de clientes e sustentabilidade do negócio”, afirma.

Ela reforça ainda que, com a crescente profissionalização do varejo de combustíveis e o aumento contínuo da frota circulante, práticas tradicionais precisam ser reavaliadas sob a ótica da rentabilidade real. Segundo a especialista, muitas vezes a percepção de benefício gerada pela ducha gratuita não se traduz em eficiência operacional ou retorno financeiro compatível com o investimento realizado. A diferença de produtividade entre os modelos ajuda a explicar esse cenário.

“Precisamos olhar para a produtividade real da operação. Em uma lavagem manual, o tempo médio é de 15 minutos e normalmente o serviço fica restrito ao horário comercial. Já uma lavagem automática leva cerca de cinco minutos e pode funcionar 24 horas por dia. Quando analisamos capacidade de atendimento e rentabilidade, a diferença é muito significativa”, destaca.

“O setor está mais competitivo e profissional. O que antes era diferencial hoje precisa ser avaliado como custo e retorno. A falta de mão de obra, a lentidão na execução dos serviços e a ausência de controle financeiro levam a uma reflexão importante: para o investidor, a pergunta central é simples: isso se paga ou não?”, conclui.

 

Crédito Imagem: Aliare

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