Guinada à direita pode reaquecer petróleo colombiano

A chegada de Abelardo de la Espriella à presidência da Colômbia deve marcar o fim da política de descontinuação gradual dos combustíveis fósseis adotada pelo governo anterior e sinalizar a retomada de leilões de novas áreas de exploração de petróleo e gás no país.

Para especialistas dos dois países, o efeito mais imediato da guinada será político, com potencial de fortalecer posições favoráveis à expansão da fronteira petrolífera em outros países da região, incluindo o Brasil.

Carlos Adrián Correa Flórez, doutor em energia pela Universidade PSL (Paris) e ex-diretor da UPME, a unidade de planejamento energético do governo colombiano, afirma que o sinal mais claro do novo governo seria a retomada dos contratos de exploração e produção, revertendo a decisão do atual presidente Gustavo Petro.

Ele pondera, no entanto, que a viabilidade dessas concessões pode ser menor do que sugere o discurso político. “A discussão não seria apenas se há intenção de outorgar novos contratos, mas quantos poderiam de fato se materializar”, diz.

Segundo Correa Flórez, a principal limitação é territorial. A Colômbia já tem cerca de 17 milhões de hectares sob contratos de hidrocarbonetos, e a identificação de novas áreas prospectivas esbarra em parques nacionais, ecossistemas estratégicos, conflitos de uso do solo e processos de licenciamento ambiental e social. O petróleo remanescente, acrescenta, é pesado e de extração cara.

Ainda assim, o ex-diretor da UPME prevê consequências rápidas no plano simbólico. Para ele, embora o efeito material sobre a produção colombiana possa levar anos, a mudança de narrativa tende a ter repercussões políticas mais imediatas na América Latina.

O economista Iago Montalvão, coordenador-executivo do Transforma-Unicamp e pesquisador do INEEP, vê na eleição a perda de um aliado regional relevante. Associado ao negacionismo climático e à liberalização econômica, De la Espriella representa, segundo ele, um retrocesso no debate da transição energética na região.

Para Montalvão, o momento exige que o Brasil coloque em perspectiva quando começará, de fato, a reduzir sua dependência do petróleo. Ele defende que a exploração em novas fronteiras, já em curso, tenha regras ambientais mais restritas e que essas áreas sejam tratadas como estratégicas, com regime exclusivo de partilha e a Petrobras como operadora única.

O economista critica a opção do governo brasileiro de leiloar os campos para reforçar o resultado primário. A escolha, afirma, deixou a estatal em posição tímida na região, com perda de soberania e de capacidade de mitigar impactos sociais e ambientais.

Montalvão propõe ainda leis que vinculem parte da renda petroleira ao desenvolvimento regional, à industrialização verde e à adaptação climática, com reforma de instrumentos como o Fundo Social do Pré-Sal e o Fundo Clima.

 

Crédito Imagem: Pixabay

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