Rodovias viram laboratório para pavimentação sustentável

Quem passa por uma obra rodoviária não imagina que existe uma verdadeira operação científica acontecendo. Soluções que utilizam materiais reciclados, que produzem menos gases de efeito estufa, que impactam na segurança e ainda geram economia para os usuários estão presentes em obras de todo o Brasil. Há até equipamentos que avaliam passo a passo o melhor pavimento para cada trecho. Tudo para atender às tendências mundiais de consumo: gastar menos, durar mais e diminuir o uso de bens naturais na produção.

Para um país que, segundo dados da pesquisa da Confederação Nacional de Transporte de 2025, precisa de um investimento total de R$ 101,10 bilhões para reconstrução, restauração e manutenção dos 114.197 km analisados, cada nova solução é válida. O asfalto deixou de ser apenas um revestimento aplicado sobre a pista.

As mudanças começam no próprio canteiro de obras. Laboratórios móveis equipados para realizar ensaios diretamente na pista permitem acompanhar o comportamento das misturas asfálticas durante a aplicação, reduzindo o tempo entre a identificação de uma eventual inconformidade e sua correção. Em vez de aguardar resultados de análises realizadas em laboratórios distantes da obra, engenheiros conseguem validar imediatamente se o pavimento está atendendo aos parâmetros definidos em projeto.

“O controle tecnológico passou a ser tão importante quanto o próprio material utilizado. Hoje conseguimos acompanhar o desempenho das misturas durante a execução e fazer ajustes em tempo real, aumentando a confiabilidade do pavimento e reduzindo riscos que poderiam comprometer sua vida útil”, afirma o gerente de Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação da GRECA Asfaltos, Wander Omena.

Sustentabilidade e economia circular

Essa transformação também é resultado da evolução dos materiais utilizados na pavimentação. Ligantes modificados por polímeros, asfaltos produzidos com borracha de pneus reciclados, misturas mornas — preparadas em temperaturas inferiores às convencionais — e a reutilização de pavimentos antigos, que de forma didática seria o reaproveitamento do próprio pavimento retirado da pista, técnica conhecida internacionalmente como RAP (Reclaimed Asphalt Pavement), passaram a integrar projetos rodoviários em diferentes países.

Segundo a Federal Highway Administration (FHWA), dos Estados Unidos, o RAP é hoje o material mais reciclado daquele país e uma das principais ferramentas para reduzir o consumo de agregados minerais e ligantes asfálticos virgens, mantendo o desempenho estrutural das rodovias. A prática também diminui o volume de resíduos destinados a descarte e reduz a necessidade de exploração de novas jazidas. Um exemplo no Brasil são as 41 mil toneladas que somente o Grupo GRECA, empresa paranaense referência nacional no setor, já empregou em misturas asfálticas. Com isso, mais de 25 mil toneladas de agregados naturais deixaram de ser extraídas. Esse valor equivale a 9.5 mil m³ de jazida mineral e um reaproveitamento de aproximadamente 1.35 mil toneladas de ligante asfáltico.

Outra tecnologia que vem ganhando espaço são as chamadas misturas mornas, produzidas em temperaturas inferiores às do asfalto convencional. Dependendo da tecnologia empregada, a redução pode chegar a cerca de 50°C durante a usinagem e aplicação, diminuindo o consumo de combustível, as emissões associadas ao processo produtivo e melhorando as condições de trabalho das equipes em campo. Com essa técnica, a emissão de gases de efeito estufa pode ser reduzida entre 10% e 15% dependendo da tecnologia empregada, além da redução de até 80% dos fumos (gases) emitidos pelo ligante de acordo com a especialista em aditivos para Asfalto Morno, Ingevity Corporation.

Uma cadeia positiva de economia circular tem permitido reverter pneus descartados inadequadamente em asfalto para melhoria da pavimentação de estradas. O asfalto-borracha leva em sua composição 15% de pó de borracha moída, deixando o pavimento mais durável e com maior resistência ao desgaste, o que aumenta a vida útil da rodovia e reduz as intervenções para manutenção. Estudos das universidades Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e de São Paulo (USP) comprovaram que o asfalto-borracha possui 5,5 vezes mais resistência à reflexão de trincas em comparação ao asfalto convencional. A utilização de pneus em asfalto no Brasil está completando 25 anos e, desde o início até o final deste ano, a GRECA Asfaltos, pioneira na técnica, vai ultrapassar a marca de 30 milhões de pneus reciclados.

Novo olhar para a pavimentação

Para o CEO da companhia, Edenilson Dalbosco, o setor passa por uma mudança de paradigma ao incorporar uma visão baseada no ciclo de vida da infraestrutura. “Durante muito tempo, a avaliação de uma rodovia estava concentrada no custo inicial da obra. Hoje, a discussão considera quanto tempo esse pavimento permanecerá em boas condições, quantas intervenções serão necessárias ao longo dos anos e qual será seu impacto ambiental. A tecnologia permite melhorar esses indicadores simultaneamente.”

A incorporação de inteligência de dados ao processo construtivo também altera a forma como as decisões são tomadas. Ensaios realizados durante a produção e a aplicação das misturas fornecem informações capazes de antecipar problemas, orientar correções e reduzir desperdícios de materiais, aumentando a previsibilidade do desempenho do pavimento. Esses ensaios têm a capacidade de indicar quais os melhores pavimentos para regiões e ocorrências de mudanças climáticas.

Para especialistas, essa evolução será cada vez mais necessária diante do crescimento do tráfego pesado, das restrições orçamentárias para investimentos em infraestrutura e das metas de sustentabilidade assumidas pelo setor. O desafio passa a ser entregar rodovias capazes de permanecer em boas condições por mais tempo, utilizando menos recursos naturais e exigindo menos intervenções ao longo de sua vida útil.

 

Crédito Imagem: Divulgação GRECA Asfaltos

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