A inteligência artificial está deixando de ser apenas uma ferramenta de apoio individual para assumir um papel estratégico dentro das empresas. Essa foi uma das principais mensagens de Leonardo Andrade, CEO da Mind 1, durante palestra na Lubescon sobre as transformações provocadas pela IA no ambiente corporativo.
Segundo Andrade, 70% dos profissionais no Brasil já utilizam inteligência artificial no trabalho, mas apenas 17% das empresas declararam formalmente seu uso. O cenário mostra que boa parte da adoção ainda acontece de maneira individual, sem processos, métricas ou estratégia corporativa.
O executivo apresentou três níveis de utilização da tecnologia: o uso individual, quando o profissional recorre a ferramentas como ChatGPT, Claude ou Gemini; a adoção corporativa, quando a empresa disponibiliza essas ferramentas aos funcionários; e a transformação, quando a inteligência artificial passa a modificar a própria forma de trabalhar.
Nesse último estágio, entram os chamados agentes de IA, capazes não apenas de conversar e ajudar, mas também de agir de forma autônoma e entregar resultados. Um agente pode, por exemplo, monitorar dados de produção, gerar relatórios e executar tarefas sem intervenção humana constante.
Andrade destacou, porém, que o principal ganho não está em simplesmente automatizar processos existentes. Para ele, as empresas precisam redesenhar suas operações a partir da pergunta “e esse processo nascesse hoje, como seria desenhado?”.
Nesse contexto, apresentou o conceito de “fábrica invisível”, formada pelos processos que recebem informações, processam dados e geram resultados. A recomendação é começar por uma operação simples, repetitiva, com grande volume de dados e baixo risco, mapear custos, tempo e gargalos e estabelecer métricas antes da implementação.
Outro ponto considerado fundamental são os “gates humanos”, momentos em que uma pessoa valida, aprova ou redireciona uma decisão tomada pela IA. O objetivo é fazer com que o humano seja acionado principalmente em situações de exceção, evitando que a própria supervisão se transforme em um novo gargalo.
O executivo também defendeu que a inteligência artificial não deve ser encarada apenas como ferramenta de redução de custos. A tecnologia pode ser utilizada para melhorar o atendimento, aumentar vendas, criar novos serviços e gerar valor.
Como exemplo, citou a IKEA, que automatizou parte do atendimento e direcionou 8,5 mil funcionários para a área de design de interiores. A mudança permitiu a criação de novos serviços e, segundo o caso apresentado, gerou cerca de 100 milhões de euros adicionais em receita.
Para Andrade, a transformação também exigirá uma mudança no perfil dos profissionais. No Brasil, a projeção apresentada aponta para a criação de 11 milhões de novas funções e a extinção de 9 milhões, com saldo positivo, mas acompanhado de uma forte transformação nas competências exigidas.
No setor industrial, a recomendação é separar inicialmente os processos administrativos e operacionais e, em seguida, identificar os pontos de conexão entre produção, logística, estoque, armazém e sistemas de gestão. A integração desses dados permitiria à IA analisar a empresa de maneira mais ampla, em vez de atuar sobre áreas isoladas.
A orientação final apresentada pelo CEO foi começar pequeno, medir os resultados e ampliar gradualmente.