Escassez de insumos petroquímicos amplia interesse por derivados de pinus

A recente instabilidade no fornecimento de derivados de petróleo utilizados pela indústria química abriu espaço para uma maior demanda por alternativas de origem renovável, como os derivados da resina de pinus. O movimento foi impulsionado pela escassez temporária das resinas hidrocarbônicas C5, insumo empregado na fabricação de adesivos, tintas para demarcação viária e outros produtos industriais.

Segundo Leonardo Siqueira, responsável pela precificação de químicos de pinus da Argus, a redução da oferta de petróleo proveniente da região do Estreito de Ormuz elevou os custos da nafta e de outras correntes petroquímicas utilizadas na produção das resinas C5, afetando principalmente a China, maior fabricante mundial desse material.

“A disponibilidade das resinas já começou a melhorar à medida que o tráfego na região foi parcialmente restabelecido, e os preços apresentam sinais de retração, embora ainda permaneçam acima dos níveis observados antes do conflito”, explica.

Na avaliação do especialista, o aumento superior a 60% registrado nos preços das resinas C5 tende a ser temporário, desde que não ocorram impactos permanentes sobre as cadeias globais de suprimentos. Segundo ele, estruturalmente, a China continua apresentando capacidade produtiva suficiente para atender ao mercado.

Durante o período de maior escassez, fabricantes de adesivos aumentaram seus estoques e passaram a buscar com maior intensidade os chamados ésteres de breu, que são derivados da resina de pinus que também desempenham a função de agente de pegajosidade em aplicações industriais. A substituição, no entanto, depende das especificações técnicas exigidas em cada processo produtivo.

Além da disponibilidade, fatores ambientais também influenciam essa escolha. Os derivados de pinus têm origem renovável e não fóssil, podendo contribuir para a redução da pegada de carbono em diferentes cadeias produtivas. Eles são utilizados em setores como adesivos, revestimentos, alimentos, produtos farmacêuticos, aromas e fragrâncias.

Segundo Siqueira, a substituição entre resinas de petróleo e derivados de pinus já ocorre com maior intensidade em segmentos como o de demarcação viária, especialmente na Europa e nos Estados Unidos. O mercado chinês também passou a ampliar essa alternativa durante o período de menor oferta das resinas C5.

Nesse cenário, o Brasil ganhou relevância. O país figura entre os maiores produtores e exportadores mundiais de breu, matéria-prima utilizada na fabricação desses derivados, abastecendo mercados como Estados Unidos, Europa e Ásia.

A valorização dos derivados de pinus ao longo dos últimos meses elevou as margens da indústria brasileira e estimulou investimentos em capacidade produtiva. Entretanto, o especialista observa que o setor enfrenta desafios para atender a uma eventual expansão da demanda, como a sazonalidade da produção de resina de pinus, que entra em período de entressafra entre julho e setembro, além da escassez de mão de obra especializada para a extração da matéria-prima.

São Paulo concentra a maior parte da produção nacional de resina de pinus, seguido pelos estados do Rio Grande do Sul e Paraná, que também possuem importantes polos industriais ligados ao setor.

Embora o interesse por matérias-primas renováveis acompanhe as metas globais de redução de emissões, Siqueira afirma que decisões sobre substituição de insumos costumam ocorrer em horizontes de longo prazo. Para ele, crises pontuais podem estimular avaliações sobre alternativas, mas dificilmente provocam mudanças imediatas nas formulações industriais.

Nos próximos meses, a expectativa é de gradual normalização do mercado. A recuperação do fluxo logístico pelo Estreito de Ormuz tende a ampliar novamente a oferta de resinas C5, reduzindo a pressão sobre os preços. Ainda assim, o episódio reforçou a vulnerabilidade das cadeias globais dependentes de derivados de petróleo e evidenciou a importância da diversificação de fornecedores e de matérias-primas.

Na avaliação do especialista, o Brasil já ocupa posição consolidada como fornecedor global de insumos renováveis. O principal desafio para ampliar essa participação está na capacidade de manter oferta estável de resina de pinus a preços competitivos, conciliando expansão produtiva, disponibilidade de matéria-prima e investimentos ao longo da cadeia.

Foto: IA

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