O automóvel está deixando de ser uma única indústria

* Por Fabio Ongaro

Durante mais de um século, a indústria automobilística viveu sob uma lógica relativamente simples. Havia diferentes marcas, diferentes tecnologias e diferentes faixas de preço, mas, no fundo, todos competiam pelo mesmo objetivo: vender um automóvel. Uns eram mais esportivos, outros mais luxuosos, outros mais econômicos. A diferença estava no produto. A função, porém, era praticamente a mesma. Tenho a impressão de que essa lógica começa a desaparecer.

Muito se fala sobre eletrificação, baterias, inteligência artificial e direção autônoma. São temas importantes, mas talvez não sejam a verdadeira transformação em curso. A mudança mais profunda parece ser outra: o automóvel está deixando de significar a mesma coisa para todos. E, por isso, a indústria caminha para uma divisão cada vez mais clara.

De um lado, teremos o carro da mobilidade. Do outro, o carro da paixão. O primeiro será cada vez menos um objeto de desejo e cada vez mais uma plataforma de deslocamento. Seu papel será levar pessoas de um ponto ao outro com conforto, eficiência, conectividade e previsibilidade. Nesse universo, o motorista pouco se interessa pelo ronco do motor, pela curva de torque ou pelo tempo de aceleração. O que realmente importa é uma cabine silenciosa, boa conectividade, atualizações remotas de software, sistemas inteligentes de assistência, baixo custo operacional e uma experiência de uso praticamente sem atritos.

É exatamente nesse ambiente que os veículos elétricos encontram sua maior vocação. Eles entregam silêncio, suavidade, eficiência energética e uma experiência extremamente confortável. A tecnologia passa a servir muito mais ao usuário do que ao entusiasta. Talvez a consequência mais interessante dessa transformação seja outra.

Se o automóvel passa a ser apenas um instrumento de mobilidade, possuir o veículo deixa de ser essencial. O acesso torna-se mais importante do que a propriedade. Assinatura, locação e, futuramente, frotas de direção autônoma passam a fazer muito mais sentido econômico do que manter um bem parado na garagem durante a maior parte do tempo.

É justamente nesse espaço que a locação de veículos ganha relevância estratégica. Durante muito tempo ela foi vista apenas como uma alternativa financeira. Hoje, passa a representar uma mudança de comportamento. O consumidor compra mobilidade, não patrimônio. Quer trocar de veículo com facilidade, eliminar preocupações com manutenção, seguro, revenda e depreciação, concentrando-se apenas na experiência de utilização. Quanto mais o automóvel se aproximar de um serviço, mais natural será o crescimento desse modelo.

Mas existe um segundo universo que caminha exatamente na direção oposta. Nele, o automóvel continuará sendo muito mais do que um meio de transporte. Será uma manifestação de engenharia, design, tradição, performance e identidade. Quando alguém compra um Porsche 911, uma Ferrari, um Aston Martin ou um Bentley, dificilmente está adquirindo apenas um veículo para deslocar-se. Está comprando décadas de história, vitórias em competições, soluções de engenharia, design atemporal e um legado construído ao longo de gerações.

Nesse segmento, a tecnologia continuará sendo importante, mas estará a serviço da emoção. A eletrificação poderá chegar, mas dificilmente substituirá aquilo que realmente sustenta o valor dessas marcas: sua capacidade de despertar paixão.

O mais interessante é que esses dois universos praticamente deixam de competir entre si. Um existe para oferecer mobilidade da forma mais eficiente, confortável e inteligente possível. O outro continua existindo para emocionar. Enquanto um transforma o automóvel em um serviço, o outro o transforma em um objeto de desejo, de história e, cada vez mais, de patrimônio.

Esse movimento, aliás, já começou. Não por acaso, surgiram fundos de investimento especializados na aquisição e gestão de automóveis clássicos e exclusivos. Determinadas Ferrari, Porsche, Mercedes-Benz e outros modelos raros passaram a ser tratados como ativos colecionáveis, cujo valor depende da escassez, da originalidade, da história e da demanda internacional. Em diversos casos, apresentaram valorização consistente ao longo dos anos, atraindo investidores que enxergam nesse segmento uma alternativa de diversificação patrimonial.

Poucos imaginariam, há algumas décadas, que um automóvel pudesse dividir espaço, em uma carteira de investimentos, com ações, imóveis ou obras de arte. Hoje isso já faz parte da realidade de alguns investidores.

Talvez esse seja o maior sinal de que a indústria mudou definitivamente. O automóvel da mobilidade será cada vez mais eficiente, inteligente, conectado e provavelmente compartilhado. Sua missão será simplificar a vida. O automóvel da paixão continuará existindo justamente porque sua função nunca foi apenas transportar pessoas. Sua missão será emocionar, preservar uma história e oferecer uma experiência que nenhuma planilha consegue medir.

No fim, talvez o futuro não pertença aos elétricos nem aos motores a combustão. Pertencerá aos automóveis que compreenderem claramente qual é o seu papel. Porque a verdadeira divisão da indústria não será entre baterias e gasolina. Será entre os carros que resolvem um problema e aqueles que realizam um sonho.

 

*Fabio Ongaro iniciou sua carreira como empresário há mais de 30 anos, ainda na Itália, tendo passado por países como Inglaterra e Estados Unidos até chegar ao Brasil, onde consolidou seus negócios em 2002, começando por um escritório de 10metros quadrados emprestado. Economista de formação, Ongaro é, atualmente, CEO na Energy Group, uma holding composta por empresas que oferecem soluções em: assinatura de veículos premium; consultoria e gerenciamento em seguros; gestão de recursos humanos e soluções integradas de tecnologia; intermediação e consultoria de negócios. Além disso, ocupa o cargo de vice-presidente de finanças da Câmara de Comércio Italiana de São Paulo – Italcam.

 

 

 

Crédito Imagens: Divulgação

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