Por Filipe Arges
O carro híbrido chegou às ruas prometendo a eficiência da propulsão elétrica convivendo com a autonomia e a infraestrutura dos motores a combustão. Essa combinação já deixou de ser uma novidade restrita a poucos modelos. Em janeiro de 2026, os veículos leves eletrificados responderam por 15% das vendas brasileiras, segundo a Associação Brasileira do Veículo Elétrico (ABVE). Por trás desse número existe uma transformação tecnológica que também alcança um componente menos lembrado pelo consumidor: o óleo do motor.
Nesse contexto, os veículos híbridos combinam motor elétrico e motor a combustão, que podem atuar separadamente ou em conjunto conforme as condições de condução. Por isso, enquanto houver um motor térmico, haverá componentes móveis que dependem de lubrificação. A Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) explica que o lubrificante forma uma película entre superfícies em movimento, reduzindo atrito e desgaste. O óleo também participa da troca de calor e da proteção contra corrosão, entre outras funções.
A eletrificação, portanto, muda a forma como o motor a combustão é utilizado, mas não elimina a necessidade de protegê-lo. É justamente aí que começa a parte mais interessante dessa transformação. O motor de um híbrido pode trabalhar de maneira bastante diversa de um veículo convencional. Em determinadas situações, o sistema elétrico assume a movimentação do carro e o propulsor a combustão permanece desligado. Quando volta a operar, pode funcionar por períodos mais curtos ou em condições diferentes das encontradas em um automóvel convencional.
Em suma, no veículo tradicional, o motor tende a ligar, aquecer, alcançar sua temperatura de operação e permanecer funcionando por determinado período. No carro híbrido, o motor permanece parado, entra em funcionamento, volta a ser desligado e pode ser acionado novamente pouco depois. Essa dinâmica interfere diretamente no trabalho do lubrificante.
Já nos híbridos mais complexos, como HEV (Hybrid Electric Vehicle) e PHEV (Plug-in Hybrid Electric Vehicle), o motor a combustão pode não funcionar continuamente ou operar em rotações mais baixas. Para o consumo de combustível, essa estratégia representa uma vantagem. Para o óleo, porém, cria desafios adicionais, porque o funcionamento intermitente pode dificultar que o lubrificante alcance e mantenha a temperatura ideal de operação. Essa dinâmica também está atrelada a desafios de proteção contra a corrosão.
Quando o motor não permanece tempo suficiente em determinadas condições de temperatura, a dinâmica de umidade e contaminantes dentro do sistema também muda. Isso aumenta a importância de formulações capazes de lidar com o regime específico de operação desses propulsores.
É por isso que a evolução dos híbridos também movimenta o desenvolvimento dos lubrificantes e o olhar dessa indústria passa a considerar como esse motor será utilizado dentro de um conjunto que alterna diferentes fontes de propulsão, cargas e temperaturas.
Para o consumidor, a consequência prática é clara: não se deve escolher o óleo de um híbrido olhando apenas a viscosidade. A especificação indicada pelo fabricante deve ser a principal referência, pois o fato de dois carros utilizarem motores a combustão não significa que trabalhem da mesma forma.
Nesse sentido, a diversidade tecnológica torna a manutenção dos veículos mais dependente de boas práticas e ações precisas. Quanto mais sofisticado o conjunto, menos espaço existe para generalizações.
Isso também representa uma mudança para o mercado de lubrificantes, pois o crescimento dos híbridos cria uma demanda por produtos desenvolvidos com base em condições específicas de uso, além de ampliar a necessidade de informação técnica para oficinas, distribuidores e proprietários. O lubrificante passa a fazer parte da estratégia de proteção de um sistema de propulsão que opera sob condições diferentes.
Existe, ainda, uma curiosidade nessa transição, já que quanto mais o veículo depende da eletrificação para reduzir o uso do motor a combustão, mais importante pode se tornar compreender os momentos em que esse motor efetivamente trabalha. Ele pode funcionar menos horas, mas isso não significa necessariamente uma operação mais simples para o lubrificante.
Dessa forma, a manutenção dos híbridos exige uma mudança de olhar. A pergunta “qual óleo esse carro usa?” continua válida, mas precisa ser acompanhada por outra: “como esse motor trabalha?”. Essa é uma questão que tende a ganhar relevância à medida que a eletrificação avança no Brasil.
E, em todo esse contexto, o óleo continua presente. O que realmente muda é o desafio que ele precisa enfrentar.
Imagem gerada por IA